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Curitiba dá pena

Eu já dei a entender por várias vezes que moro em Curitiba (ou aqui, para os mais bem humorados). Devo ter dito isso com todas as letras também. Não me lembro se fui além dessa afirmação e se dissertei um pouco sobre a cidade. Creio que não, mas, de qualquer forma, serei breve.

Moro aqui há dois anos. Os nativos não são, como costuma-se dizer, frios. São apenas chatos. O curitibano típico é um sujeito meio orgulhoso, se querem saber. É que a cidade é bem organizadinha, tem alguns lugares bonitos e um sistema de transporte que já foi bom (hoje está saturado, basta ver as filas enormes nos tubos e os ônibus todos lotados), o que faz as pessoas acharem que estão no primeiro mundo ou qualquer coisa assim.

Curitiba não é, com o perdão da expressão, "fria pra caralho". Faz frio, sim, mas é de vez em quando, como em qualquer cidade normal. E, quando faz, às vezes faz bastante -- nada de outro mundo, uma semaninha de frio de verdade em julho e tal. Isso começou a ser divulgado aí no começo dos anos 90, se não me falha a memória, para alavancar o turismo, pois além do "frio" não há muitas outras coisas para conquistar visitante. Trata-se de uma interpretação sagaz do fato de ser a cidade com a menor média térmica do país (17ºC, se não me engano).

E não podemos esquecer do ar europeu. Como dizem por aí, Curitiba é um pedacinho da Europa cercado pelo Brasil. Não é poético? Eu não conheço o velho continente, mas a pretensão do curitibano é quase insuperável.

(E eu sei que generalizar não é legal, mas não vou ficar enchendo o texto de exceções, justificativas e desculpas. Utilizem o bom senso.)

Tendo desfeito todos esses mitos, vos digo que nem por isso se trata de uma má cidade. O grande problema daqui não são os curitibocas, mas a violência. Morre bastante gente aqui e assaltos são rotineiros, sacumé... Tenho vários colegas que já foram assaltados tantas vezes que nem sabem mais dizer exatamente quantas foram. Eu, por outro lado, em dois anos, acho que tive sorte: fui somente quase-assaltado (é uma história engraçada, mas não vem ao caso) e felizmente sem mais contratempos -- apesar de ir a pé para tudo quanto é lugar.

Mas tudo isso foi pra dizer que vi agora na Folha esse texto do qual roubei o título, que trás números preocupantes: 26 assassinatos no feriado de carnaval -- e olha que as festas carnaval daqui são extremamente modestas. A cidade está bem acima da média nacional assassinatos, com incríveis 49,3 mortes por 100 mil habitantes. É uma pena que isso não soe muito europeu ou de primeiro mundo. Curitiba está pior do que São Paulo e no páreo com o Rio de Janeiro.

Com a notoriedade de boas administrações vem a negligência.

Então, meus caros dois ou três leitores, se eu desaparecer subitamente, esta é uma informação que deve ser levada em conta durante a formulação de hipóteses trágicas.

Contudo, deixo-vos com essa música alegre que sintetiza bem o dia-a-dia da capital paranaense, embora as numerosas referências não façam muito sentido para quem não é daqui ou para aqueles que nunca visitaram a cidade.

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boring stuff

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