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Veia Científica

Nos comentários do post anterior, o Vinhal compartilhou o link de uma matéria da revista Piauí sobre a Ayahuasca, mais especificamente sobre as experiências de um voluntário num estudo sobre os efeitos do cházinho. O relato é mesmo muito interessante e engraçado, vale a leitura. E em vez de comentar mais uma vez sobre o Daime, ocorreu-me outra coisa.

Antes de ter a Navalha, eu tinha um emprego. Por quase um ano eu recebi um salário para não fazer quase nada e por mais divertido que isso possa parecer, chegou uma hora que meu saco adquiriu um diâmetro deveras avantajado e perigava explodir, tamanho tédio. Foi quando percebi que deveria tomar uma atitude drástica, fazer alguma coisa para contornar a situação que já se mostrava insustentável: pedi demissão para preservar meus culhões.

Na noite anterior eu li e reli (uma vez) meu sucinto contrato. A cláusula nona dizia que eu poderia dar no pé quando eu bem entendesse e sem justificativa alguma, o que me encheu de orgulho e satisfação por ter assinado todas as trocentas vias daquele negócio. Tentei me demitir por e-mail, mas não obtive resposta.

Faltei, então, naquela segunda-feira como se minha decisão já estivesse acertada. Sem ter recebido mensagem alguma dos meus superiores, acabei invadindo a sala com um cinematográfico chute na porta e uma entrada triunfante e veloz que acabou me fazendo deslizar numa pose disco até a mesa dos patrões, incrédulos, para informá-los de minha decisão repentina e indiscutível. Tive um impulso tarantinesco de combinar palavrões a cada três ou quatro palavras, além de bater no tampo de madeira do móvel com o punho fechado ao final de toda performance. Me contive. Faltou a música, também. Fingia ouvir com muita atenção o que me diziam, embora eu estivesse empenhado em encontrar uma frase de efeito para encerrar aquele momento de modo marcante. Mas, coisa singular!, não podia me lembrar de nada além dos dizeres de Schwarzenegger, no Exterminador do Futuro, e, porra, aquilo não servia. Tinha que ter mais erudição. Por pouco, confesso, não deixei escapar algo como "navegar é preciso, trabalhar não é preciso", mas antes que eu pudesse perceber eu já havia me despedido com uma saudação de praxe e caminhava para a liberdade com o peito cheio e cabeça erguida, como um bom recém desempregado.

Dois meses depois, para contornar a depressão e fazer-me ouvir, criei um blog. (Attica!!)

Eu sabia que precisava ficar um tempo sem fazer nada, absolutamente nada, mas a grande semelhança dessas férias com o meu antigo emprego me demoveu da idéia -- e eu, obviamente, não receberia um vintém sequer. Considerei Adsense, banners do Mercado Livre e da Medalha da Nossa Senhora, post pago e até mesmo um shortinho de lycra, tudo isso para angariar fundos durante o hiato trabalhista. Contudo, constatei a tempo, por meio de cálculos e previsões semi-esotéricas, que eu não precisaria me humilhar e me vender de modo tão vulgar. Acabei comprando apenas o shortinho e fui celebrar minha independência financeira na Cruz Machado.

Mas divago. O fato é que desde então mantenho-me na gloriosa, e um tanto popular, função de desempregado e nas últimas semanas tenho querido ingressar em outras atividades mais rentáveis do que essa. E com isso retomo, pois, o gancho do primeiro parágrafo: vos digo que agora há pouco naveguei até o templo da onisciência e disparei-lhe palavras-chave que supus, num breve instante de sagacidade, serem capazes de me trazer fortuna e glória, sabedoria e bem-estar, enfermeiras e psicotrópicos gratuitos.

No donuts for me.

Aparentemente não há, no momento, pesquisas psicodélicas nas quais eu possa me inscrever e isso me deixou bastante frustrado. Pra quê um hospital universitário, então? Ora, se for para não incorrer em experimentalismos seria melhor que tivessem construído outro hospital evangélico -- cuja existência, aliás, julgo engraçadíssima, mas guardarei minhas blasfêmias para outra oportunidade.

Imprimi ao meu relato tal carga dramática porque espero poder contar com indicações e talvez até contatos dos meus influentes leitores com os altos círculos da medicina, com a vanguarda científica ou mesmo com os CAs de Humanas, para intermediar a aquisição e posterior apreciação, sempre em nome da ciência, de componentes químicos que muito me interessam. (Aceito, também, e de bom grado, passagens aéreas para Barcelona, Cidade do México, Manaus ou Amsterdã.)

Aguardo propostas para satisfazer minha veia científica.

Digressões

Ontem dediquei um tempo considerável em reflexões diante da tela em branco para constatar que eu realmente não tinha nada pra dizer. Mas eis que hoje, sob o chuveiro, tudo se conectou como num estalo eu escrevi a coisa toda mentalmente. O único problema das epifanias regadas à água quente é que metade da inspiração escorre pelo ralo e o restante vai secando até o preciso momento em que me acomodo diante da máquina e não me restam mais que alguns vestígios. É deles, contudo, que dá pra tirar alguma coisa. O título do post é sugestivo. Os assuntos, por outro lado, não têm relevância alguma.

Acontece que hoje eu acordei desnecessariamente cedo, manhã fria que estava, e me vi sorvindo café e lendo e escutando música (nada novo até aqui) mas pela graça randômica senti-me bem aos primeiros acordes de Shine on you crazy diamond -- e eu sei que é um tanto melodramático começar a manhã fria, e solitária e blá-blá-blá com o Wish You Were Here, mas eu não tive escolha. A aleatoriedade tem sempre a sua graça e o próximo disco foi Moon Pix (Cat Power), 14 músicas que eu tinha escutado apenas uma vez e que me agradaram um bocado nos momentos em que prestei atenção nelas nessa segunda oportunidade. Logo depois, Balmorhea, e foi aí que a manhã pegou no tranco. Pink Floyd deu as caras novamente com Animals e eu almocei ao som de Hocus Pocus, do disco Live At The Rainbow. Nada mal.

Mas só cometo tal relato porque pouco antes de sair começou Derek & The Dominos, The Layla Sessions: The Jams, e esse é um velho companheiro. Layla é o disco mais conhecido deles e eu baixei, escutei e apaguei. Não achei graça. Mas os Jams, ah! Não sei quanto tempo depois lançaram as sessions (gravações feitas durante a confecção do Layla), que são 5 músicas de 12 a 20 minutos com Eric Clapton mandando ver na guitarra e os restante da banda acompanhando e solando e não tem vocal nem nada. Não me canso de escutar.

E eis que o tal Jam I começa e eu tenho de sair logo para não me atrasar, mas não me dá vontade alguma de pausar a música e acabo aumentando o volume. Eu já perdi refeições e horas de sono pra rascunhar algumas coisas: perder o ônibus, naquele momento, era quase uma obrigação. E o perdi, claro.

Daí eu segui com pressa, assim que a música acabou, pra não perder outro ônibus e encontrei o tubo lotado -- como se todos estivessem escutando os seus jams antes de sair -- o que chega a ser quase um preview do que se irá passar dentro do veículo. Por obra do acaso acomodei-me nos fundos do ônibus, sentado, e empunhei O Jogador para vencer alguns parágrafos até o meu destino. Ao meu lado e em pé por todo o corredor havia garotas de Biologia -- e, porra, este é um curso bem interessante quando se trata de garotas; ao menos do ponto de vista estético. Mas elas iam falando de provas, que é um assunto chato independente do curso, e consegui me concentrar no bom e velho Dostô até que uma delas começa a falar de Jung e, num gancho incompreensível para mim, passou a comentar sobre Ayahuasca.

Se entendi bem, elas iam tomar o "cházinho" e tenho certeza que esbocei um sorriso meio irônico, pois elas realmente não sabiam muita coisa a respeito e fiquei imaginando a deformação facial de todas elas quando sentissem o gosto de MERDA que Daime tem. Pelo menos é o que dizem.

(Aliás, eu disse em algum post lá no começo do ano que eu estava lendo um livro do Otávio Frias Filho, o Queda Livre, e um dos ensaios era precisamente sobre o Santo Daime. Muito interessante. Conta toda a história do surgimento da religião, das epifanias psicotrópicas, dos templos e tal. Só lamento não ter o livro em mãos agora para fazer as devidas citações. Em vez disso, acreditem em mim.)

A conversa foi indo e pelo que entendi a degustação alucinógena era parte do programa de algum grupo de estudos (!!) e confesso que faltou pouco para que eu me manifestasse a fim obter mais informações. Não que o Daime seja um sonho de consumo (no sentido psicodélico da expressão), mas sendo assim, de forma tão acessível e provavelmente sem todo o ritualismo católico-amazônico, eu topava sem pensar muito mais que duas vezes.

Mas, enfim, deixando o chá de lado, pois a coisa não foi muito mais longe do que isso, acabei me lembrando de duas outras coisas que têm a ver justamente com minha inabilidade de começar diálogos ou mantê-los quando começados por outrem, uma vez que eu, de modo geral, não sei conversar. Na fila do caixa rápido do supermercado uma senhora entra atŕas de mim com uma caixa de papelão na mão. Com um sorriso débil, ela começa, num sotaque bem característico do interior do Paraná:

-- Eu tava precisando de uma caixa pra amassar uns pães (?), né, e eu pedi pra eles e eles me deram essa aqui.
-- Sei.

Vale dizer que a fila do caixa rápido é única e demora pra cacete. Demos um passo e ela insistia em conversar comigo e não com as pessoas que estavam atrás dela. Realmente não compreendo.

-- A fila tá grande, né, eu vim pra comprar umas coisas lá pra casa e vou voltar agora pra fazer os pães.
-- Hm.
-- E demora, né, eu vim de a pé e tenho que levar logo essa caixa lá pra casa que estão me esperando.
-- Puxa.

Daí eu passei a ignorar a infeliz, virando a cara porque eu não aguento essa gente que sente necessidade de falar por falar. Eu ainda estou ensaiando complementar o meu "puxa" de modo a torná-lo menos cínico e mais direto, algo como: "puxa, senhora, sabe que isso não me importa nem um pouco?" Hei de fazê-lo -- esta é uma das minhas resoluções de ano novo.

A outra coisa, para concluir a seqüência desordenada de pequenos causos, que não tem nada a ver com a anterior e é ligeiramente constragedora, deu-se no fim de semana quando geralmente saio para caminhar por aí. Devia ser umas 21 horas, não mais do que isso, e eu fazia um caminho que costumo fazer, para findar numa pequena praça onde geralmente me sento por alguns minutos e volto a caminhar para um lado qualquer. O fato é que nunca vi ninguém por ali e dessa vez um cara surgiu do nada e se sentou num outro banco. Em pouco tempo perguntou se eu estava triste com alguma coisa ("não", eu disse) e passou a me inquirir sobre amenidades. Eu recompunha minhas forças e responder aquelas coisas não me custava nada. Daí o sujeito acabou se sentando no mesmo banco que eu e, mudando de assunto mais rápido que uma patricinha muda de roupa, passou a elogiar minha hombridade, meu físico (!!) e quis saber se minhas calças eram de zíper, pois isso "facilitava as coisas".

"Sim, elas são de zíper," eu disse, "mas olha, eu vou nessa, boa sorte, viu." E me mandei dali.

Sozinho, claro.

O problema é que, como me disse esse sujeito, o fato de eu estar sentando ali significava que eu queria, hm, fornicar. Tal revelação por parte dele serviu para destruir toda a simbologia do meu repouso e a motivação de ter naquele ponto uma escala para as caminhadas. Terei de repensar meu roteiro.

Mas vendo a coisa pelo bright side, ao menos ele queria que eu fosse o ativo...

(Esse último relato só está aqui porque eu o tinha escrito de outro modo, mais ou menos assim, com outras tantas coisas juntas, mas acabei apagando. A idéia de incluí-lo nesse post era eliminar o assunto e compartilhar com os leitores os desejos sexuais que ando suscitando por aí.)

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