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Marcha da Maconha

A Marcha Global da Maconha ocorre nesse ano em mais de 230 cidades e tem como objetivo reabrir o debate sobre a planta e seus diversos usos, que vão do medicinal ao recreativo. Cá no Brasil, as manifestações estavam programadas para a tarde do dia 4 de maio, às 14h, inicialmente em 10 cidades (Cuiabá, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, João Pessoa, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). Destas, somente a capital pernambucana poderá exercer o direito da livre expressão e questionar política antidrogas do país: a justiça proibiu o evento em todas as outras nove cidades com o argumento de que estariam fazendo apologia à maconha, o que é crime.

Surgiu daí uma nova proposta, o Dia de Luta pela Liberdade de Expressão, marcado para 10 de maio, no mesmo horário e nos mesmos locais, em protesto contra as proibições das marchas. A discussão da maconha perde força mas amplia o leque do debate: é proibido questionar algumas leis?

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Agora há pouco o site da Marcha foi atualizado e a relação de cidades aumentou: Florianópolis, Porto Alegre e Vitória também terão suas marchas e elas, a princípio, estão confirmadas -- isso se a justiça não intervir nas próximas doze horas. Os locais estão relacionados no site.

O evento já passou por aqui antes e desde 1999 mais de 450 cidades em todo o planeta já participaram.

E eu já falei sobre a famigerada planta algumas vezes, caso queiram dar uma olhada. Num dos posts eu havia disponibilizado links para uma entrevista com o pessoal da ONG Plantando a Paz e um debate sobre a legalização da droga. Porém, como previ, os links quebraram. Segunda-feira, pela manhã, dou um jeito de colocar tudo no ar, pois tenho cópias dos arquivos. Podem me cobrar.

"Lamente-se pelo homem"

Embora o livro estivesse na estante já há alguns meses e a vontade de lê-lo fosse crescente, só o retirei de seu repouso entre Wilde e Burgess na semana passada ou na anterior e findei a leitura ainda ontem -- feita durante aulas, nos seus intervalos e no ônibus --, e senti-me estranha e repentinamente eufórico, ligeiramente apático e um tanto pensativo. Falo de On the Road.

Não pretendo resenhar o livro ou justificar todas as minhas sensações e impressões, apenas comentarei algumas delas, pois há resenhas e boas análises aos montes por aí.

Eu já havia passado por Jack Kerouac antes, primeiramente com Os Subterrâneos -- um choque pelo ritmo dos parágrafos intermináveis e detalhados-- e depois com o melancólico Tristessa -- que, entre outras coisas, consolidou minhas intenções de pisar em solo mexicano algum dia desses. Menos frenético que o primeiro e mais complexo que o segundo, a bíblia dos beats imprimiu-me diversos humores enquanto Sal Paradise e Dean Moriarty estendiam polegares na beira das estradas para descolar uma corona, enquanto se metiam em ônibus ou dirigiam país afora pegando outros caroneiros e percorrendo milhares de quilômetros entre o Atlântico e o Pacífico.

On the Road

Mapa desenhado pelo próprio Kerouac. Mais info aqui.

O impulso de também querer lançar-me na estrada já era esperado e veio tão logo Sal resolveu se mandar para o Oeste. A empolgação de Dean contagia, torna-se incômoda, meio infantil, mas depois volta a cativar e a solidão inevitável nas vastas planícies, sob o sol ou céu estrelado, e o calor e o vento e a velocidade, é algo que te toca de alguma forma e chega a sugerir que não importa para onde as estradas te levem ou com quem percorremos todo o caminho: estamos sempre sozinhos.

E a frase que me derrubou de fato está logo no início da quinta parte, quando nosso narrador está de volta às ruas desertas da noite de Nova York, gritando para a janela de um prédio onde imaginava que seus amigos estavam e eis que dela surge uma linda garota, como ele nos diz, perguntando quem ele era: "'Sal Paradise', disse eu, e ouvi meu próprio nome rossoar na rua melancólica e vazia." E é como se eu o tivesse feito e sentido essa mesma punhalada.

Daí pra frente as páginas foram viradas rapidamente e aí eu já estava no posfácio do tradutor (Eduardo Bueno, edição pocket da L± excelente tradução), um texto apaixonado que termina de modo simples e profundamente sincero, reduzindo em duas palavras tudo o que resta para dizer no fim da estrada: "Thanks, Jack."

* * *

Cheguei a consultar um mapa dos EUA durante a leitura para ter uma idéia melhor de onde ficavam algumas das cidades citadas. Assim como o mapa acima, existem outros tantos que traçam a rota dos dois estradeiros.

O mapa abaixo, por exemplo, traz apenas o caminho e omite as cidades e o próprio mapa, mas transmite bem a magnitude da jornada. (E me parece invertido, não?)

On the Road

Desconheço o autor ou a origem.

Mas, sem dúvida, o achado mais legal foi este mapa do Google Maps com as marcações de todas as cidades pelas quais Sal Paradise passou, parou ou mencionou, além do modo como ele fez para chegar até elas (de carona, ônibus ou de outro jeito). E cada um dos pontos contém a citação correspondente no livro.

On the Road

Curitiba dá pena

Eu já dei a entender por várias vezes que moro em Curitiba (ou aqui, para os mais bem humorados). Devo ter dito isso com todas as letras também. Não me lembro se fui além dessa afirmação e se dissertei um pouco sobre a cidade. Creio que não, mas, de qualquer forma, serei breve.

Moro aqui há dois anos. Os nativos não são, como costuma-se dizer, frios. São apenas chatos. O curitibano típico é um sujeito meio orgulhoso, se querem saber. É que a cidade é bem organizadinha, tem alguns lugares bonitos e um sistema de transporte que já foi bom (hoje está saturado, basta ver as filas enormes nos tubos e os ônibus todos lotados), o que faz as pessoas acharem que estão no primeiro mundo ou qualquer coisa assim.

Curitiba não é, com o perdão da expressão, "fria pra caralho". Faz frio, sim, mas é de vez em quando, como em qualquer cidade normal. E, quando faz, às vezes faz bastante -- nada de outro mundo, uma semaninha de frio de verdade em julho e tal. Isso começou a ser divulgado aí no começo dos anos 90, se não me falha a memória, para alavancar o turismo, pois além do "frio" não há muitas outras coisas para conquistar visitante. Trata-se de uma interpretação sagaz do fato de ser a cidade com a menor média térmica do país (17ºC, se não me engano).

E não podemos esquecer do ar europeu. Como dizem por aí, Curitiba é um pedacinho da Europa cercado pelo Brasil. Não é poético? Eu não conheço o velho continente, mas a pretensão do curitibano é quase insuperável.

(E eu sei que generalizar não é legal, mas não vou ficar enchendo o texto de exceções, justificativas e desculpas. Utilizem o bom senso.)

Tendo desfeito todos esses mitos, vos digo que nem por isso se trata de uma má cidade. O grande problema daqui não são os curitibocas, mas a violência. Morre bastante gente aqui e assaltos são rotineiros, sacumé... Tenho vários colegas que já foram assaltados tantas vezes que nem sabem mais dizer exatamente quantas foram. Eu, por outro lado, em dois anos, acho que tive sorte: fui somente quase-assaltado (é uma história engraçada, mas não vem ao caso) e felizmente sem mais contratempos -- apesar de ir a pé para tudo quanto é lugar.

Mas tudo isso foi pra dizer que vi agora na Folha esse texto do qual roubei o título, que trás números preocupantes: 26 assassinatos no feriado de carnaval -- e olha que as festas carnaval daqui são extremamente modestas. A cidade está bem acima da média nacional assassinatos, com incríveis 49,3 mortes por 100 mil habitantes. É uma pena que isso não soe muito europeu ou de primeiro mundo. Curitiba está pior do que São Paulo e no páreo com o Rio de Janeiro.

Com a notoriedade de boas administrações vem a negligência.

Então, meus caros dois ou três leitores, se eu desaparecer subitamente, esta é uma informação que deve ser levada em conta durante a formulação de hipóteses trágicas.

Contudo, deixo-vos com essa música alegre que sintetiza bem o dia-a-dia da capital paranaense, embora as numerosas referências não façam muito sentido para quem não é daqui ou para aqueles que nunca visitaram a cidade.

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boring stuff

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