aí terminei de assistir agora ao boogie nights -- tinha visto apenas aquele longo começo sem cortes, com a câmera passeando pela discoteca e flagrando diálogos, sempre em movimento -- e antes de qualquer outra coisa o filme quer dizer outras duas muito mais importantes e de forma bem clara. a saber: 1. a vida não tem sentido nenhum; e 2. os 80's mataram os 70's.
ok, filosofia rasa sobre um filme SOBRE (crescendo) pornografia (metachanchada?) não costuma ser algo suficientemente profícuo para que valha a pena destilar dois dedos de prosa a respeito, mas peço para que atentem para a hora de publicação deste post e, após a devida surpresa (ou choque), leiam-me com alguma atenção. pronto? ok.
uno: a vida não tem sentido nenhum mesmo. you don't need to go any further. o filme, no caso, apenas assina, em duas ou três vias, sua ciência do fato ao jogar todos os personagens na merda (e no fim tira alguns lá, é verdade, mas eles vão cair de novo, como sempre caem. ou então apenas emergiram momentaneamente pra respirar um ar. de merda).
dos: na festa da virada da década, metem uma faixa rosa na ponta do telhado, sobre aquela madeira que fica logo abaixo do final das telhas, vocês sabem, aquilo tem um nome e as pessoas o pintam de branco pra combinar com qualquer que seja a cor da parede, que no caso era de madeira também, ainda que fosse, em verdade, uma ampla varanda; e eles metem essa faixa rosinha que diz GOODBYE 70's HELLO 80's em tinta preta e letra cursiva (da rollergirl, aposto) e aí ela tira uma polaroid de tão perto da faixa que deve ter fotografado apenas um pedaço dos dizeres, algo como ODBYE, sabe?, e sai patinando toda feliz e tal. e o filme todinho está nessa faixa rosa e na rollergirl (sempre com seus patins) e na polaroid e na deveras irônica e inocente boas vindas aos 80's que vão arremessar tudo e todos, pelos bagos, para a grande e quiçá infindável fossa do fracasso. ploft.
haja uísque. (ou vinho, aqui.)
mas aí volto ligeiramente ao passo UNO porque a curva não é apenas descendente, mas vertiginosa, pois, oh, como todos envelhecem e a garotinha dos patins de outrora já carrega algumas ruguinhas e um nariz completamente fodido pela coca; a outra, mais velha, amber, já era mesmo mais velha antes e vai, podemos dizer, amadurecendo ao longo do longa, também vencendo CARREIRAS com canudinhos de dólar e apresenta traços de certa superação no final quando, diante do espelho, looks like a MILF (não que não fosse antes, mas isso é evidenciado pelo adjetivo foxy que lhe é atribuído). o intervalo temporal é de poucos anos, mas havemos de convir que uma virada de década, isto é, o acrescer de uma unidade na casa das dezenas é algo que demanda um esforço (muito) maior que um simples estourar de xampãnhe ou festividades roupa-branca-pula-onda. porque todas as coisas acabam e esse é o sinal numérico disso, o prelúdio da decadência -- se numerologia fosse só isso, eu comprava.
a parte filosófica, tão rasa quanto a maioria das 'filosofadas' que lemos por aí, é justamente essa: ter a sagacidade em ponderar até onde vale a pena se convencer de que vai dar tudo certo.
porque não vai.
boogie nights carrega no título alguma nostalgia que só é escancarada ali, na cena da faixa rosa. nostalgia essa tão distante e incompleta quanto ODBYE numa polaroid ou patins com dois pares de rodas e freio na frente.
um niilismo chanchada, eu digo.