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harmonica hero

Minha guitarra descansa numa prateleira alta já há algum tempo -- lanço-lhe um olhar conformado agora -- e cá ao meu lado o amplificador e os fios emaranhados vão sendo cobertos de pó ao longo dos dias.

Atrás de mim há uma estante com meus livros e dezenas de gigabytes de filmes. Mas, entre tudo isso, escondidinha ali em sua pequena caixa de papelão duro e bem acabado, descansa, também, uma gaita. Logo que me mudei para cá, numa kitnet pequena, sem computador, sem televisão e até sem cadeiras (mesmo), tentar tocá-la era um dos meus poucos passatempos (a saber, os outros eram ler e andar por aí). Um mês e pouco depois, com cadeiras e computador (ainda sem internet) recém adquiridos, eu tentava tocar umas partituras e perdia horas olhando para o monitor e para os orifícios do instrumento, assoprando errado e inspirando fora de hora. Eu conseguia tocar o começo de Stairway to Heaven e, quando acertava, até que ficava legal. Mas depois disso coloquei-a de volta na caixinha e nunca mais tirei.

A guitarra eu comprei depois e toquei mais, ainda que com pouco sucesso. Nunca fiz aulas e apostei, como sempre, na autodidática, que costuma funcionar comigo de forma satisfatória. O único (e principal) problema é que não tenho paciência e disciplina para certas coisas. Costumo ter pressa e freqüentemente dou passos maiores que minhas pernas, o que significa falhar miseravelmente no aprendizado de um instrumento musical.

E o pouco que sei, venho esquecendo.

E quando a guitarra emerge para o solo em uma música qualquer ou quando urge num riff mais marcante e indefectível, pego-me balançando a cabeça e dedilhando um instrumento imaginário, com toda a destreza que não possuo para tocar o real, com pesar e, de certa forma, um pouco conformado. Talvez haja um certo orgulho em dizer que estou aprendendo algo com alguém e não sozinho. E talvez daí eu conclua que seja melhor deixar as coisas como estão, acumulando pó, e ignorar que no fundo elas me incomodam bastante. Pois sei que em breve empunharei a guitarra, arrancarei alguns acordes sofríveis e a colocarei de volta na prateleira, sem qualquer ganho.

Gaita idem, mas as dezenas de meses que nos separam do último contato me faz ter mais apreço por ela, mais vontade de entendê-la. Lembro-me agora que dentro da caixinha há um papel com informações sobre o instrumento, o passo-a-passo de uma musiquinha simples e indicações de como segurá-lo, tudo em inglês, e neste último tópico há um frase (já não me recordo exatamente dela) que diz para tomarmos cuidado com a gaita, pois é provável que ela se torne uma boa companheira.

Veremos. Acho que ainda tenho uma segunda chance.

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boring stuff

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