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George Carlin is no more

George Carlin morreu ontem, no domingo, aos 71 anos, de ataque cardíaco. Uma pena. Além de ser um excelente comediante, também tinha algo a dizer -- o que anda muito em falta hoje em dia. Aliás, salvo algumas variações, esse era um dos temas recorrentes em suas apresentações: the people are fucked.

Abaixo, uma rápida reflexão sobre a educação nos EUA, mas a carapuça nos serve muito bem.

Além desse, já postei outros vídeos dele aqui no blog. E, claro, há muito mais no iutube.

Grande perda.

Shopping Hauer

As gotas de água de uma catarata estrepiosa se dissipam como pó com a rapidez de um raio; mas o arco-íris, do qual elas são como que o suporte, está fixo em tranqüilidade inabalável, completamente intacto a essa mudança ininterrupta; do mesmo modo, cada idéia, isto é, cada espécie de ser vivente, persiste por completo intocada pela sucessão contínua dos indivíduos que ela encerra. A idéia, ou a espécie, é a raiz, o lugar onde se manifesta a vontade de vida: é o único elemento cuja duração importa verdadeiramente à vontade. Os leões, por exemplo, nascerão e morrerão; eles são como as gotas da cascata, mas a leonitas, a idéia ou a forma do leão, é equivalente ao arco-íris imutável que está acima da queda d'agua. Por isso para Platão somente as idéias, isto é, as species, têm como atributo uma existência verdadeira; quanto aos indivíduos, cabe-lhes apenas um nascer e perecer incessante. Dessa consciência mais íntima e profunda de sua natureza imperecível, deriva também a segurança e a tranqüilidade de ânimo com a qual todo indivíduo, animal ou mesmo humano, caminha sem inquietação por entre mil perigos capazes de destruí-lo a todo momento, e que, ademais, o levam ao encontro da morte. No entanto, em seus olhos brilha a calma da espécie, à qual o desaparecimento do ser não afeta nem importa. Nem os dogmas incertos e mutáveis poderiam dar essa calma ao homem.

Li esse texto ("Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si") pela primeira vez uns 3 anos atrás e julgo-o sensacional.

Porque tenho pensando excessivamente nessas coisas, a ponto de me sentir freqüentemente atormentado por elas. A releitura, antes de trazer qualquer resposta, me bombardeia de outras tantas perguntas e amplia o horizonte do questionamento. É bom.

A convicção profunda da indestrutibilidade de nosso ser pela morte, que cada um traz no fundo de seu coração, como atestam os escrúpulos de consciência sempre invitáveis quando se aproxima o derradeiro instante, essa convicção, como disse, depende fortemente da consciência de nossa natureza primitiva e eterna. (...) Com efeito, por se acreditar imperecível, o homem dotado de razão se crê como se não tivesse tido começo, como eterno; em uma palavra: independente do tempo. Quem, ao contrário, se toma por um ser que surgiu do nada, tem de pensar também que retornará ao nada; pois imaginar que uma infinidade de tempo tivesse transcorrido antes que ele fosse, mas, depois, uma segunda infinidade tenha começado, durante a qual ele não cessará jamais de ser, é um pensamento monstruoso. (...) Mas para quem considera o nascimento do homem como o seu começo absoluto, a morte tem de ser o fim absoluto; pois os dois são aquilo que são no mesmo sentido: por conseqüência, só se pode pensar em si mesmo como imortal, se se pensar como não-nascido, e no mesmo sentido. O que é o nascimento, é isso também o que é a morte, na sua natureza e no seu significado; é a mesma linha traçada em duas direções. O primeiro é um real surgir do nada, e a segunda é também uma efetiva aniquilação. Mas, na verdade, a eternidade do nosso ser é o único modo de pensar a imutabilidade; esta, portanto, não é temporal. A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte será seu fim absoluto.

A metáfora do arco-íris é genial. O texto todo, aliás, que é um suplemento ao livro quatro da obra "O mundo como vontade e representação", é repleto delas. Eu costumo recomendá-lo acompanhado de vários e vários adjetivos. Mas acho que já deu pra entender.

PS: Ao leitor desatento, o título (e tampouco o texto) nada tem a ver com este estabelecimento comercial. Mas sim com este sujeito aqui.

Curta de Quinta - Funeral

O curta desta quinta, trágico e breve, chama-se...

Funeral

Enquanto o vídeo carrega, algumas palavras rápidas...

Normalmente preparo os posts desta série com certa antecedência, mas nessa semana não consegui fazê-lo e escrevo aqui apressadamente. A escolha deste curta foi também simbólica por se tratar de um filme bastante breve -- 1 minuto -- e que irá chocar as mentes mais sensíveis.

Feito por um pessoal da Universidade Federal Fluminense, conta a história de um rapaz que sofre com a perda de um companheiro. Dirigido por Rafael Saar e com a atuação de Patrick Kitzinger e Érico Silva Muniz.

Se queres matar-te, mata-te!

Uma coisa que nunca entendi é a obsessão da polícia, dos bombeiros ou mesmo da maioria das pessoas em impedir suicídios.

Até compreendo que o pessoal do corpo de bombeiros esteja habituado a salvar vidas e que talvez não possam controlar o impulso de exercer sua profissão mesmo quando a pessoa quer dar um fim na própria existência. Mas, ora, qual o problema em deixar o sujeito se matar?

Encontrei, cá nas minhas coisas, uma notícia de 12 de março deste ano que eu devo ter guardado justamente para usar num artigo sobre suicídio. Reproduzo-a:

A polícia espanhola evitou pela internet um suicídio na Alemanha ao avisar colegas alemães de que um homem ameaçava, em uma sala de bate-papo, se matar.

Morador de Bremer Haven, o homem apontava uma pistola para a sua cabeça enquanto conversava no chat e disse que o motivo do descontrole emocional era ter sido abandonado pela mulher.

Segundo informações das autoridades, a ameaça foi feita na quinta-feira. Um policial entrou no chat para falar com o potencial suicida, ganhando tempo para que os policiais alemãs chegassem à casa do homem.

Internautas espanhóis que participavam da conversa alertaram serviços de emergência que, por sua vez, avisaram a polícia alemã, que chegou a tempo de evitar o suicídio.

Fonte: Folha Online

Ora, pra que ir "salvar" uma pessoa que quer morrer? Isso não faz sentido algum.

E o ditado do "cão que ladra, não morde" se aplica perfeitamente aqui: se um cara entra numa sala de bate-papo dizendo que vai se matar, esta, provavelmente, vai ser uma das últimas coisas que ele irá fazer. O sujeito quer atenção.

Quem se mata geralmente não faz muito alarde. Às vezes escreve uma carta ou deixa um recadinho e é só. Depois pula, se enforca, toma veneno, atira na própria cabeça. São esses os corajosos, pois não precisam de holofotes.

De qualquer forma, ainda me parece estranho o desejo alheio em impedir que alguém se mate. Mas vamos por partes.

Em (quase?) todos os lugares do mundo, matar uma pessoa é crime. Mas se a pessoa que irá ser morta é justamente a mesma que irá matar, o crime e o castigo já não estarão, ao mesmo tempo, presentes no ato suicida? Ou seja, a dívida pela morte já estaria paga (e bem paga!) Ou seria a preservação da vida um castigo para um acusado de tentativa de homicídio de si mesmo?

Não é conveniente pintar o suicídio como algo abominável para evitar que esta se torne uma escolha comum e até popular entre os desgostosos? Não vale a pena, do ponto de vista do sistema, manter vivos até mesmo os que não o desejam para que usufruam de sua infraestrutura? Não seria, por fim, o suicídio a mais eficaz das armas contra a própria sociedade -- tendendo ao absurdo de fazê-la sucumbir assim que o último homem se jogasse ao abismo?

Ou ainda -- agora serei maldoso --, as autoridades que se julgam na obrigação de manter as pessoas vivas não estariam impedindo o suicídio por serem coniventes com o pensamento possessivo e chantagístico das famílias dos infelizes que, pouco depois de perderem o ente "querido", simplesmente encontram-se solitárias e só fazem repetir para si o seguinte questionamento egoísta: "por que ele fez isso comigo?"

Ignoram que o desgraçado do morto fez o que fez, na maioria das vezes, por não suportar a própria família e supostos amigos que, ironicamente, são os que vão chorar (e por pouco tempo) não pela morte dele, mas por sentirem-se um tantinho vazios. Chega a ser cômico, vendo desta forma.

Então eu pergunto novamente: para que cercear o direito que temos de findar com nossa própria existência?

Não faz sentido.

Entretanto, eu concordo que, em certos casos, a intervenção é necessária. Por mais poético e cinematográfico que seja, jogar-se do alto de um prédio ou de um viaduto, por exemplo, não é um ato exclusivamente individual e solitário. A pessoa não terá, obviamente, consciência disso, uma vez que, se a construção de onde saltou tiver altura considerável, estará morta e não terá como se desculpar caso caia sobre um automóvel ou um transeunte. Deve-se levar em conta, também, que a preocupação com os outros quando se está a dezenas de metros do chão e prestes a saltar é algo que deve passar longe da cabeça de um suicida.

Sendo assim, é melhor que as autoridades já citadas agarrem o sujeito -- que provavelmente nem iria pular, pois só queria atenção -- e ensinem a ele formas alternativas e seguras de se matar: seja receitando venenos eficazes ou dando lições de como confeccionar uma forca ideal. O que importa aqui é que ninguém mais se machuque.

Voltemos, então, ao alemão da notícia. É plausível dizer que o sujeito estava sozinho em casa, já que estava se lamentando via internet, o que é bem patético. Desta forma, com a arma apontada na direção de sua própria e provavelmente escassa massa encefálica, as chances de outras pessoas se ferirem eram, podemos supor, ínfimas.

O policial que entrou no bate-papo para "ganhar tempo", como nos diz a notícia, deve ter se assegurado deste e de outros tantos detalhes. Bastaria, então, que dissesse para o sujeito puxar o gatilho de uma vez por todas, ora!

Estamos falando de um adulto que pode muito bem (ok, talvez mais ou menos bem) cuidar do próprio nariz. Ou atirar contra ele, se bem entender.

Enfim, já me demorei demais neste assunto. Sequer vou comentar sobre os incompetentes que já tentaram e não conseguiram se matar. Reservem, pois, alguns segundos de suas vidas para pensar na magnitude da frustração de um sujeito que, completamente infeliz, está fadado a vagar entre os vivos até que o destino diga o contrário. Imaginem o estado psicológico de alguém que levou a sério o odioso "se mata!" e que voltou para contar a história do fracasso...

Mas antes de encerrar, digo-vos que o título deste desalmado artigo refere-se ao belíssimo poema "Se te queres matar, porque não te queres matar?", de Álvaro de Campos, que foi escrito no dia em que se completavam dez anos do suicídio do poeta e grande amigo de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro.

Reproduzo-o aqui como um nobre complemento ao assunto exposto.

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boring stuff

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