Constatei esses dias que tenho um senso de humor irrestrito. Diante da chamada de uma reportagem sobre crianças "indomáveis", o narrador encerrou deixando no ar um questionamento sobre o que os pais deveriam fazer. "Jogar a criança do sexto andar," eu respondi, e embora tenha arrancando alguns sorrisos cautelosos num primeiro momento, o que veio depois foram olhares inquisidores, ofendidos e sei lá mais o quê. Outra vez, numa situação análoga, me vi diante de uma oportunidade imperdível, daquelas que duram poucos instantes, para escrachar um causo que me contavam e insinuei que o sujeito da história era um pedófilo e foi a mesma coisa: risos (pois a tirada tinha sido boa) e logo depois a expressão de horror à simples menção da palavra, como se eu estivesse estuprando uma menina de seis anos diante deles.
Eu sei que não é legal defenestrar crianças (e pessoas, de um modo geral), e tampouco obrigá-las a participar de atos sexuais quaisquer, mas não vejo razão em demonstrar repulsa à essas coisas sempre que alguém fala delas. Talvez seja algum tipo de jogo sobre o qual eu não esteja a par, onde quem se revoltar por último perde ou é encarado como praticante dessas atividades pouco ortodoxas -- e, se este for o caso, meu isolamento voluntário pode não ser tão voluntário assim. De qualquer modo, esse senso de humor moralista que vigora por aí tem me deixado um tanto incomodado -- não por estar proferindo coisas potencialmente ofensivas (o que, convenhamos, é legal), mas por ter os comentários sarcásticos previamente censurados, como se fossem descartados por estarem fora das normas.
(E, antes de intuam o que não devem, eu não sei contar piadas. Nem tento.)
Pois então, após tal constatação, a tarde de ontem se mostrou profícua e suficientemente bem humorada para que eu pudesse experimentar minhas hipóteses e flertar com a pedofilia -- no sentido figurado, bem entendido --, de modo que as primeiras incursões nesse campo hostil não foram de todo ruins, mas tão somente porque o contexto as salvava, e esta aparente aceitação acabou sendo o estopim para um crescendo ácido e profano, como se não houvesse amanhã, e que acabou por culminar num silêncio sepulcral e constrangedor. Epic fail!
Mas eis que, ironia das ironias, fui salvo pela graça de deus: seu filho Jesus acabou entrando na roda por um motivo que já não me recordo e ao satirizá-lo brevemente pude extinguir todos aqueles olhares de reprovação que até então me fuzilavam sem impiedade, restaurando assim o clima inicial e jogando terra sobre a controversa e sexual temática infanto-juvenil que, insisto, tinha lá a sua graça.
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Confesso ao leitor um problema: comecei a escrever este texto pela manhã, mas fui obrigado a interrompê-lo, de modo que já não me lembro muito bem onde eu gostaria de chegar com ele.
Mas enquanto eu caminhava para os meus afazeres, questionei-me a respeito da minha supracitada insensibilidade (que chamei eufemisticamente de "senso de humor irrestrito") e fui levado a crer, numa rápida retrospectiva e auto-análise enquanto eu trotava por sobre os ladrilhos mal-colocados das calçadas curitibanas, que tudo isso se deve ao fato de este que vos fala detestar crianças e bebês e adolescentes de um modo geral. Eu não sei ao certo qual foi a gênese desta repulsa que nutro em meu âmago, mas já que desci até este ponto do meu Eu, creio que possa ser didático -- de um ponto de vista puramente ilustrativo, pois, já disse, não sei os motivos -- o relato de um brevíssimo episódio ocorrido a não muito tempo atrás:
Estávamos eu e mais dois colegas sentados numa mesa a conversar, e ao redor várias outras pessoas faziam o mesmo. Repentinamente, ao interpelar um deles, noto em sua face uma expressão débil de, sei lá, alegria, enquanto ele encarava algo fora do meu campo de visão. Ao virar-me para averiguar a situação, encontro uma garotinha de dois anos ou menos, vestida toda de rosa, caminhando aos tropeços e girando, também debilmente, em seu próprio e impreciso eixo, emitindo grunhidos e sorrindo para quem quisesse olhar. A parte ilustrativa vem agora: enquanto meu colega continuava embasbacado com aquele pinguinho de gente, eu torcia para que a pequena criatura caísse e fosse devidamente recolhida e silenciada por sua progenitora -- o que infelizmente não aconteceu. Não é, no entanto, maldade de minha parte. Meu sadismo é moderado e racionalmente administrado, pois se a criança se machucasse a ponto de chorar isso iria me incomodar muito mais (por causa do choro, claro). Eu desejava, vos digo, uma queda cinematográfica o suficiente para que a mãe desatenta pudesse clamar por uma divindade qualquer e, numa corrida apressada, tomar a criança no colo, arrependendo-se de tê-la deixado girar indiscriminadamente por aí.
Desconheço, repito, os meus motivos, mas minha teoria é de que esta antipatia nasceu num passado não tão distante, quando por algumas vezes este humilde autor foi vítima de um punhado de e-mails que traziam consigo apresentações em powerpoint repletas de fotos de bebês, música new age e frases religiosas ou de auto-ajuda.
E não me surpreende que hoje eu deteste todas essas coisas.
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Acometido por um lampejo meio tardio, volto à pauta inicial, a do senso moralista de humor.
O gancho para a conclusão, se bem me recordo, era justamente os impropérios cometidos por mim contra o também conhecido pelo acrônimo piegas NSJC, pois estas pequenas e homeopáticas heresias, em geral, ofendem apenas os fanáticos e o grosso do rebanho não-praticante costuma, o que julgo uma incoerência, rir, ainda que com uma parcela de culpa, sem se indispor com aqueles que as proferem.
Não pretendo me aventurar pelo escorregadio e traiçoeiro campo do moralismo maleável e do falso moralismo, das incoerências, de um modo geral. O que me parece estranho são as reações tão extremas para agulhadas maliciosamente inocentes em assuntos que não deveriam tratados com tantos cuidados, com um excesso de delicadezas e ressalvas.
Também não estou defendendo (e lá vão algumas ressalvas...) a satirização de todas as coisas e a todo momento. Meu problema é com incapacidade de alguns em aceitar que um comentário sobre um tema desses não é mais do que uma brincadeira boba e passa longe de ser uma ofensa.
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E é claro que essa história de pedofilia e religião não poderia deixar de se aglutinar em algum ponto do meu emaranhado de neurônios para retornar à minha porção consciente a lembrança de um vídeo que exige do espectador, além do domínio razoável do idioma do Bush, um senso de humor ligeiramente insensível: aqui está, aos mais fortes. (Ok, é exagero.)
