Em maio de 1966, durante sua conturbada turnê européia, Bob Dylan perambulou por um bom tempo pela Inglaterra, onde fez, entre outras, sua clássica apresentação em Manchester -- e não, como todos pensam, em Londres; e é por isso que "Royal Albert Hall" está entre aspas, folks.
Os ânimos já estivam exaltados desde 1965 por conta do Bringing It All Back Home, parcialmente eletrificado e com a outra metade das faixas ainda no estilo folk, e da apresentação no festival de Newport no mesmo ano, com uma banda -- e, vocês sabem, coloque uma bateria e tudo fica muito mais alto e barulhento. Um horror para os puristas.
A primeira metade do set era apenas Dylan, gaita e violão, tocando alguns clássicos e outras faixas menos óbvias, mas igualmente interessantes, todas recebidas com aplausos e sem muita hostilidade do público britânico. Após Mr. Tambourine Man, no entanto, veio a parte elétrica com Tell Me, Momma (não gravada em estúdio) e junto com a barulheira de Dylan & os Hawks, muitas vaias. A cada transição entre as músicas desta segunda metade escuta-se com clareza, no supracitado e sensacional bootleg, os gritos e tudo mais. O início de Ballad of a Thin Man, penúltima música, dá uma boa amostra de tudo o que não foi dito alto o bastante para aparecer na gravação -- mas alto o suficiente para se fazer ouvir ali dentro. Mas é o final que me interessa: da platéia alguém grita "Judas!" e é aplaudido. Dylan responde "I don't believe you" e completa logo depois: "You're a liar!" Pra quem viu o filme, a cena é mais ou menos aquela. A melhor parte, porém, é inaudível no bootleg e é justamente uma das cenas finais do documentário No Direction Home, do Scorsese. Bob se vira para a banda, distante do microfone, e dá o ordem: "play it fucking loud!" E mandam Like a Rolling Stone em alto e bom som. Lindo.
Nesse mesmo documentário há um depoimento engraçado sobre essa rejeição do público, que vaiava tem todas as músicas elétricas mas quando chegava em Like a Rolling Stone, paravam, cantavam junto, aplaudiam e depois voltavam a vaiar. Povo difícil, esses fãs inconformados -- e um pouquinho orgulhosos.
